domingo, 3 de junho de 2018
ALUGUEL DE FAMÍLIA NO JAPÃO
Talvez você não saiba, mas no Japão é possível alugar pessoas (geralmente atores) para interpretar por um tempo determinado (e valor) papéis/funções das mais variadas, inclusive como parentes substitutos.
Um viúvo de 60 anos cuja esposa morrera recentemente e que tivera uma briga com a filha única, cortando relações, aluga uma esposa e filha para jantares familiares. O custo, quarenta mil ienes, cerca de mil e trezentos reais por quatro horas.
Uma mulher idosa aluga frequentemente um neto para acompanhá-la nas compras.
Uma mulher personifica a esposa de um homem há sete anos. A verdadeira esposa engordara, e o marido contratou a substituta para sair com ele e seus amigos. A mesma atriz também substituiu mães com excesso de peso em eventos escolares (no Japão os filhos de pais com excesso de peso estão mais sujeitos a bullying).
Um noivo não queria dizer à sua noiva que seus pais estavam mortos, e alugou pais substitutos para um encontro com os futuros sogros.
Uma mulher cega alugou uma pessoa para se passar por um amigo em um encontro de solteiros, para indicar os bons partidos.
Mulheres solteiras com pais obcecados por casá-las, costumam alugar namorados ou noivos. Se os pais pedirem para ver o namorado novamente, a filha diz que as coisas não deram certo.
Os casamentos são a grande fonte de renda do negócio de aluguel de substitutos, porque as rígidas tradições que determinam a cerimônia, como o número de convidados, não mudaram para refletir a crescente urbanização e o encolhimento das famílias japonesas.
Noivos alugam colegas de trabalho e supervisores substitutos. Pessoas que mudaram de escola alugam amigos de infância substitutos, assim como alugam pais substitutos, no caso dos verdadeiros estarem divorciados, encarcerados ou doentes.
Casamentos falsos também. O custo é alto, cerca de cinco milhões de ienes (aprox. cento e setenta mil reais). Em alguns casos a noiva convida colegas de trabalho, amigos e familiares verdadeiros. Em outros são todos atores, exceto a noiva e seus pais. O padrinho de aluguel faz um discurso, muitas vezes levando convidados de aluguel às lágrimas.
Uma das muitas empresas que prestam este tipo de serviço tem o slogan "Mais prazer do que o prazer que a realidade pode proporcionar". A empresa mantém no seu banco de dados, cerca de mil e duzentos atores independentes que participaram de casamentos, seminários, feiras, plateias variadas, assim como fazer-se passar por pais substitutos para aquelas mães com problemas em colocar seus filhos em um jardim de infância competitivo (as escolas japonesas favorecem as crianças cujos pais são casados).
A origem de tudo talvez seja a desregulamentação do mercado de trabalho japonês nos anos noventa e na erosão do estilo de vida dos assalariados do pós-guerra.
Trinta e oito por cento da força de trabalho japonesa é composta de trabalhadores freelances e a imprensa incentiva esta forma de trabalho como uma maneira de ganhar um ‘extra’.
Como muitos aspectos da sociedade japonesa, a autenticidade e a consistência não são necessariamente valorizadas por si só, e a ocultação da autenticidade é frequentemente interpretada como um ato de altruísmo e sociabilidade, e não de engano ou hipocrisia.
De todos os serviços, um dos mais desconcertantes talvez seja o “repreendedor de aluguel”.
O cliente, um empresário com cerca de 50 anos, abandonara as obrigações para jogar golfe e visitar clubes de hostess com o cartão da empresa. Os funcionários sabiam disso, e isso o fez se sentir envergonhado, levando-o a contratar alguém para advertí-lo.
As possibilidades do serviço são muitas. Se você cometer um erro no trabalho, e um cliente insatisfeito exigir ver seu supervisor, você poderá contratar alguém para se passar por supervisor.
Este, identificando-se como tal, pedirá desculpas. Se o pedido de desculpas não for aceito, um ator diferente pode ser enviado para se desculpar como chefe de divisão. Se o chefe da divisão não obtiver resultados, é enviado um presidente com remorso. Essas situações podem se complicar porque os chefes de divisão e os presidentes reais não estão cientes de que pediram desculpas.
Mais estressante ainda são desculpas envolvendo assuntos amorosos.
Um marido enganado exige um pedido de desculpas pessoal do amante de sua esposa. Esposas infiéis com amantes não cooperativos podem alugar amantes substitutos.
Se o amante é casado, o marido prejudicado pode exigir uma reunião com o amante e a esposa do amante, na esperança de ver o casamento de seu rival destruído. Então, os amantes cujas esposas não sabem sobre seus casos amorosos, acabam alugando esposas substitutas.
Outra agência de aluguel oferece um serviço mais especializado, o serviço de choro, um desdobramento de outro serviço direcionado às “cerimônias de divórcio” que se destinam a fornecer alívio do estigma social. Nesta ocasião as mulheres que têm vergonha de seus divórcios contratam parentes de aluguel.
O serviço do choro (rui-katsu - “choro comunal”) propõe alívio das tensões para pessoas que não conseguem chorar sozinhas e também promove sessões de choro em corporações, a fim de aumentar o espírito de equipe.
Demonstrações de sentimentos em público são um tabu que vem mudando bastante no Japão e as mulheres consideram que um homem que chora é sensível e gentil - contanto que ele também seja bonito. Os clientes então escolhem de um catálogo de homens bonitos, choradores profissionais.
Com o crescimento econômico do pós-guerra e a ascensão da cultura corporativa, as famílias japonesas tornaram-se lares nucleares residenciais - que consistiam em um trabalhador assalariado, uma dona de casa e filhos.
Durante o boom econômico dos anos 80, as mulheres trabalhavam cada vez mais fora de casa, enquanto a taxa de natalidade diminuia, a taxa de divórcio e o número de pessoas solteiras subiam. O mesmo aconteceu com a expectativa de vida e a proporção de pessoas idosas.
Foi quando surgiu a primeira onda de famílias de aluguel. O pós-modernismo estava no auge e, em uma época de relativismo cultural, o relativismo de aluguel se encaixava bem.
Mas, se pensarmos bem, o que são babás, enfermeiras e cozinheiros, se não uma forma de pessoas de aluguel, desempenhando algumas funções que em algum tempo eram tradicionalmente realizadas por mães, filhas e esposas?
De fato, a ideia de que as famílias são definidas por "um amor que o dinheiro não pode comprar" é relativamente recente.
Em 1898, a feminista Charlotte Perkins Gilman escreveu sobre “amor romântico” e “sacrifício materno” como construtos ideológicos: uma isca para manter as mulheres em casa. Meninas jovens foram educadas para valorizar o romance acima de tudo e cultivar sua beleza para atrair um marido - então, por um contrato não explícito, sem preparação ou treinamento, era esperado que se transformassem em enfermeiras, educadoras e faxineiras não remuneradas e em tempo integral, impulsionadas por um instinto maternal misterioso que automaticamente entra em ação “quando chega a hora”.
No Japão do final do século XIX, o estado introduziu a ideologia do “amor romântico”, que definiu a sequência ideal da vida de uma mulher em termos semelhantes: namoro seguido de casamento, parto e o despertar de um “amor maternal” e a premissa triunfante de um papel de cuidador dessexualizado.
O capitalismo patriarcal tem sem dúvida um interesse velado em promover esta ideia como algo universal e humano.
O trabalho não remunerado de dona de casa - educação infantil, gestão do trabalho doméstico, preparação de alimentos etc - deveria ser distribuído entre especialistas remunerados, de ambos os sexos. O que acontece com frequência é que essas tarefas, em vez de serem dirigidas a profissionais respeitadas e bem pagas, são impingidas a mulheres desfavorecidas socioeconomicamente, liberando seus pares mais privilegiados para seguir suas carreiras.
Nove anos atrás uma dentista divorciada, alugou um pai em tempo parcial para sua filha de dez anos, que, como muitos filhos de mães solteiras no Japão, estava sofrendo de bullying na escola. Saber que seu pai se importava com ela, transformou uma criança apática e triste numa criança extrovertida e feliz. A mãe passou a reservá-lo para aniversários, noites de pais e mestres, mesmo para passeios de um dia à Disneylândia. Agora com dezenove anos, sua filha ainda não conhece seu verdadeiro pai.
Segundo a mãe "É o caso de que a família real nem sempre é a melhor coisa".
Segundo um professor de psicologia que há trinta anos tenta popularizar a terapia familiar em um Japão estoico e avesso a conflitos, onde a psicoterapia ainda é estigmatizada, os parentes de aluguel podem ser uma forma de terapia de grupo, como o psicodrama, em que os pacientes atuam e improvisam as situações passadas ou os processos mentais um do outro.
Trechos retirados a partir de “A Indústria de aluguel de famílias no Japão” de Elif Batuman
https://www.newyorker.com/magazine/2018/04/30/japans-rent-a-family-industry
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