domingo, 1 de abril de 2018
A HUMANIDADE NÃO FOI FEITA PARA SER FELIZ
Tente definir ‘felicidade’.
O dicionário Webster não vai nos ajudar muito.
“Estado de bem-estar e contentamento”. É como dizer, “felicidade é felicidade”.
Pode ser indefinível, mas sabemos quando nos sentimos felizes. O que quer que ela seja, não há nada melhor, e tudo que fazemos para ficarmos felizes vale o sacrifício. Corremos atrás dela, trabalhamos para conseguir, fazemos quase tudo exceto desfrutá-la.
A verdade é que, como afirma o romancista Akira Tachibana no suplemento de verão da revista Bungei Shunju, a humanidade não foi feita para ser feliz.
Quatrocentos milhões de anos de evolução nos condicionaram muitos mais para a ansiedade do que para a felicidade. É como deveria ser. Relaxe e seja feliz, nossos ancestrais primitivos das florestas e savanas tinham predadores mais fortes, mais rápidos, mais famintos e mais numerosos do que eles para se preocupar.
Algumas pessoas são mais felizes do que outras.
Alguns grupos étnicos são mais felizes que outros.
Em parte, diz Tachibana, é uma questão de genética. A felicidade pode ser reduzida a fisiologia, e a substância em questão, segundo os neurocientistas, é um neurotransmissor chamado serotonina. Aquelas pessoas que segregam mais serotonina tendem a serem mais felizes, de maneira geral.
Japoneses neste aspecto estão em desvantagem, pois o nível de produção da serotonina de orientais é baixo. A felicidade para eles é evasiva e fugaz.
O Relatório de medição da felicidade mundial, publicado pelas Nações Unidas em 2017 coloca o Japão em 51º, a Coréia do Sul 56º e a China 79º.
(NT. Os países nórdicos dominam entre os ‘mais felizes’, sendo a Noruega o primeiro da lista. EUA vem em 14º e o Brasil em 22º.)
O ser humano é mais fácil de definir do que a felicidade que este procura. Seres humanos são criaturas conhecidas por transcender a química de seus corpos. A serotonina, portanto, não é o único fator, existe também a habilidade de conhecer a nós mesmos e que ironicamente na visão de Tachibana, reside basicamente em saber que nada sabemos sobre nós. É um conhecimento que vale a pena ter por si só, e uma pista para uma aproximação mais racional da felicidade.
Perseguir a felicidade se torna fútil, quando não sabemos o que queremos alcançar. A chave está em ‘manipular o inconsciente’, o que significa dizer que você é tão feliz quanto consegue pensar que é.
Psicanalistas nos ensinaram que não somos quem pensamos ser. Mais recentemente, neurologistas nos fizeram reconhecer o quão pouco do nosso ambiente e de nossa situação percebemos.
O cérebro recebe dez mil sinais elétricos por segundo do nervo ótico, dos quais processamos somente 40.
Eu rio quando me sinto feliz e choro quando me sinto triste? Besteira. O fato é que o riso e as lágrimas surgem como resposta a sentimentos dos quais não estamos cientes deles até começarmos a rir ou a chorar. Rir nos diz o quão felizes estamos, tanto quanto o copo de água em sua mão diz que você tem sede. Você só alcança o estado, em média, 0,35 segundos antes de estar ciente de sua sede.
O que então nos faz felizes?
Difícil dizer, talvez seja impossível afirmar, dado o vasto escopo do inconsciente em proporção á consciência tão limitada e o que deixamos de fora da nossa percepção.
A humanidade em geral é infeliz.
Devíamos agradecer à infelicidade, pois devemos nossa sobrevivência a ela. A felicidade em excesso, em outros tempos mais primitivos, teria nos condenado à extinção.
Mesmo hoje, felicidade em excesso pode acabar com nossa resiliência.
(NT. Resiliência é a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.)
Podemos viver sem felicidade, mas não sem resiliência. Precisamos frequentemente nos erguer sobre as pequenas e grandes tragédias que nos atacam. Adoecemos, sofremos acidentes, perdemos partes do nosso corpo, perdemos pessoas que amamos. Terremotos, vulcões, tempestades, secas, guerras, crises econômicas destroem nossos lares e nossas vidas. Somos mais vulneráveis a mais horrores do que as rotinas entorpecedoras da vida cotidiana nos estimulam a lembrar, o que é bom, embora a mídia nos mantenha mais do que amplamente informados sobre os perigos.
Muita felicidade enfraquece nossa capacidade de nos reerguer do desastre. A natureza, portanto, limitou nossa capacidade de ser feliz.
Pense na primeira cerveja de um dia quente de verão. É maravilhosa! A segunda cerveja? Menos. A terceira? Comum.
Assim como com a cerveja, o dinheiro.
Alimento suficiente, vestir e educar a nós mesmos e aos nossos entes queridos, dinheiro sobrando para um bom nível de conforto e diversão, isso já nos dá toda a felicidade que podemos lidar.
Uma receita de 8 milhões de euros por ano compra mais felicidade que 6 milhões de euros por ano, mas 8 é o limite. A partir daí, 10 milhões, 12 milhões, 100 milhões não nos tornarão mais felizes.
As noções atuais de crescimento econômico ilimitado nos faz questionar o por que de estarmos trabalhando. Perguntaríamos mais a sério se tivéssemos alguma ideia do que faríamos ao invés de trabalhar.
A felicidade continua sendo um mistério.
Michael Hoffman especial para o The Japan Times 26-8-2017. Michael Hoffman é autor do livro “In the Land of the Kami: A Journey into the Hearts of Japan” e “Other Worlds.”
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