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O Japão é tanto pescador quanto agricultor, é uma cultura insular, mas tem também a paciência (e as desconfianças) de uma cultura agrícola: o fascínio pelas estações, com planos de longo prazo, safras.
O mar os unem. O campo os definem.
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Nunca me sinto mais forasteiro do que quando assisto a um festival no Japão. Ali a cultura japonesa está a todo vapor, e tudo que se pode fazer é ficar de lado vendo-a passar.
Quando sai da área do castelo, os últimos tambores tocavam uma mensagem, e a mensagem não era para mim.
Não foi a ausência de rostos ocidentais no Festival de Uwa-jima que deixou um sentimento de vazio em meu peito. Verdade seja dita, prefiro ser o único forasteiro - ter tropeçado em outros ocidentais teria mexido com meu orgulho e me reduzido ao nível de turista. Digo a mim mesmo com frequência que não sou um turista. Existo em algum outro lugar, entre o voyeur e o exilado.
No Japão, a passagem de Turista a Exilado e finalmente em Aceito é interrompido em Exilado. Não há um passo final para a aceitação.
Somos mantidos à distância de um braço pelo arco de uma mesura, pelo som de um tambor.
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Os japoneses não são um povo frio. Às vezes gostaria que fossem, pois isso facilitaria a partida.
O problema não está em que você não é bem-vindo. Você é bem-vindo — como um forasteiro.
O problema não é a exclusão, o problema é a exclusão parcial.
A porta está aberta, mas a corrente está presa. Uma mão convida e a outra barra.
O Japão não é a Terra dos Corações Partidos, é a Terra do Orgulho Ferido.
Não é o fato de eu querer ser aceito e não conseguir que me incomoda. Não quero ser japonês. O que magoa meu coração ocidental é que não importa o que eu queira ou não. Eu não poderia ser japonês de qualquer forma, mesmo que quisesse, e isso dói no orgulho da gente.
Nós queremos rejeitar, mas não queremos ser rejeitados.
Eles chamam isso de Complexo de Seidensticker, por causa do estudioso e tradutor americano, e ele descreve os sentimentos ambivalentes que atormentam residentes estrangeiros que moram por muito tempo no Japão, um pêndulo de emoções se alternando entre atração e repulsa, afeto e raiva — indo e vindo.
Mas a imagem é falsa. Esses sentimentos não se alternam. Eles são inseparáveis. Tão inseparáveis como cheiro de urina e de incenso no mesmo vento.
O mesmo festival que o encanta o exclui.
As pessoas não amam e depois odeiam e depois amam o Japão, como um metrônomo.
Elas o amamodeiam, querem ficar pertolonge dele, irficar.
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Ele me mostrou algumas estampas de paisagens feitas por um artista visitante que pintava cenas de Shodo. Ficamos sentados no silêncio absoluto de sua casa por alguns instantes até ele dizer, quase como uma reflexão: “Ela morreu... Não faz muito tempo. Um ano. Menos, menos de um ano”.
Sorriu. Um sorriso de tristeza, uma expressão que é profundamente japonesa.
Eu costumava ficar intrigado com sorrisos de tristeza, mas agora acho que os compreendo.
Esses sorrisos revelam emoções que os japoneses tentam esconder. Eles dizem: Estou triste, por isso vou sorrir na compreensão de que você perceba que isto é apenas uma fachada que esconde um sofrimento profundo demais para lágrimas.
Ensaios inteiros foram escritos sobre o sorriso japonês, é um suspiro adiado, e é bem mais profundo que soluços de choro ou lágrimas escorrendo.
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Shuho Jishi, o jovem sacerdote do Templo Seiken-ji, falava inglês fluentemente. Tinha passado seis anos numa missão xintoísta em São Francisco e se adaptou bem à vida na América, mas quando seu pai morreu ele foi obrigado a retornar para a ilha de Shodo e assumir o templo da família.
“Sou o filho mais velho”, me disse com simplicidade. “O sacerdócio não é uma vocação no Japão; é um posto hereditário”.
Como em tantas coisas no Japão, o comportamento adequado é a essência do culto: como seguir os rituais, como recitar sutras importantes, como evitar erros de protocolo.
Treinamento e conhecimento apropriado são absolutamente necessários, mas uma espiritualidade profunda não é obrigatória.
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Um repórter de aparência soturna apontou para um mapa de satélite do Japão e explicou que em Kanazawa as cerejeiras só estavam oito por cento floridas, trinta e quatro por cento a menos que no ano passado. Ou talvez fosse o contrário. Seja como for ele estava muito preocupado com isso e, para prová-lo, a emissora de televisão mostrou uma seleção de mapas cobertos por linhas de contorno, espirais e grades complicadas, como se dizendo: “Pagamos uma fortuna por esses mapas, por isso agora vocês vão ver todos esses malditos mapas”.
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Sonhos.
No Japão a palavra ‘sonhos’ carrega consigo uma nuance de ilusão.
Admitir alguma coisa como seu sonho é quase admitir que ela seja inatingível. Atravessar um continente numa moto. Donas de casa que sonham com caravanas. Forasteiros sonhando em ser aceitos.
O Japão está cheio desses sonhos; os sonhos se impregnam nele como as incontáveis divindades que habitam cada montanha, cada rocha, cada ilha e cada baia. Eles moram em casas. Altares são construídos para sustentá-los, eles são aplacados com pequenas oferendas, são inatingíveis como as brumas, inevitáveis como o ar. Sonhos adiados.
Um dos ideais japoneses é o auto sacrifício, e a primeira coisa sacrificada são, em geral, os próprios sonhos secretos, intensamente pessoais, inatingíveis.
Lembro-me de uma mensagem grafitada na parede de um templo, uma das primeiras frases japonesas que decifrei: “o Japão é uma nação movida em boa parte por suspiros”.
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Eu costumava pensar que no Japão “algum dia” queria dizer “em breve”, ou “eventualmente”, mas estava errado.
No Japão, algum dia não existe no futuro, existe numa esfera absolutamente diferente da existência. Significa “em outra vida, em outro tempo”.
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Ninguém pode afirmar que viveu se não viu um assalariado japonês cantando a balada “My way”, de Frank Sinatra. E uma daquelas visões tristes e quintessências que parecem definir o Japão. Que espetáculo mais estranho e, contudo, comum: um assalariado todo amarrotado, vivendo uma vida de mesuras e conformismo sufocante, um homem casado com a sua empresa, um homem que — aos milhares, todos os anos — trabalha até a morte para o bem da corporação, um homem que tem que comer merda e sorrir o dia inteiro, um homem que alimenta o motor econômico da nação e, no entanto continua obscuro, ignorado e, muitas vezes, é abertamente escarnecido.
Um homem assim, de pé e cantando num inglês sentido: sua voz mostra, ele recebeu os golpes e fez da sua maneira! Isso é algo que não se esquece tão cedo.
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Hoje, vinte e quatro mil japoneses reivindicam ascendência ainu, mas poucas têm sangue puro e sua língua é tudo menos morta, graças, em grande parte, a uma campanha concentrada e incansável de assimilação montada pelo governo japonês. A influência ainu parece ter se estendido, no passado, bem para o sul no interior de Honshu — o “Fuji”, de Monte Fuji, é considerado de origem ainu —, mas o ainu de hoje se reduziu a um espalhafatoso espetáculo de segunda categoria para turistas.
Idosos ainus ficam sentados estoicamente exibindo suas tatuagens como uma exposição de lepra, enquanto turistas japoneses riem e posam ao lado deles para fotos. São muito deprimentes esses zoológicos humanos...
Enraizou-se ultimamente um renascimento teimoso da cultura ainu, sobretudo no que diz respeito a música, lendas e dança, mas no geral a situação é delicada.
Aborígines australianos, nativos norte-americanos, índios sul-americanos... algo na psique dos colonizadores se incomoda com a propriedade primitiva, já que os tratamos de forma paternalista, os brutalizamos, ignoramos, e depois nos tornamos poéticos sobre os povos que desalojamos.
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Telhados japoneses.
Eles transformam a mais humilde casa japonesa num castelo. (suspeito que o principal propósito da própria casa seja simplesmente sustentar e exibir melhor o telhado.)
Algumas casas no Japão são mesmo construídas do telhado para baixo, sem colunas de sustentação central, num desenho que tem sido descrito como “um livro equilibrado sobre lápis”.
Em muitos países ocidentais, o topo pesado das casas japonesas seria reprovado pelas normas de construção. Mas quando os terremotos estrondeiam pelo Japão, derrubando viadutos e rachando concreto, as pequenas casas de madeira de teto pesado oscilam como bêbados e seguem de pé.
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As casas japonesas se amontoam na beirada das ruas da cidade. Elas se espremem, lado a lado, quase parede com parede. Entre elas correm vielas da largura de um braço apenas. Os bairros são um labirinto de ruas de pista única, divisões estreitas, becos sem saída.
Os japoneses geralmente mencionam o alto custo da terra para justificar esse efeito de pacote apertado, mas há outras razões.
Uma aldeia japonesa típica é cercada de áreas abertas, convidativas: florestas, arrozais, montes. Mas em vez de espalhar as casas por elas e proporcionar um espaço maior a cada pessoa, os japoneses enfiam suas casas em pacotes apertados, como que se agarrando uns aos outros para se protegerem. Os arrozais formam um fosso de verdura a seu redor, e os japoneses vivem uns nos colos dos outros.
Isso é um hábito nascido em parte da geografia — os fiordes da costa naturalmente encorajam as aldeias a se aglomerarem em enseadas.
Mas é algo mais também.
O plano das aldeias japonesas nasceu de uma necessidade que o Ocidente, em grande medida, tem taxado de fraqueza: a necessidade de companhia humana e a tristeza de estar só.
No Ocidente nós tememos a insignificância.
No Japão eles temem a solidão, é nesse sentido amplo que o Japão é descrito como feminino e o Ocidente como masculino.







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