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Os japoneses acreditam que existe uma maneira certa de viver, amar, provocar orgasmos femininos, decepar o dedo mindinho, tirar os sapatos, girar um bastão de beisebol, escrever uma matéria sobre homicídio, morrer e até acabar com a própria vida.
Há uma maneira certa, uma maneira perfeita para fazer qualquer coisa.
A reverência pelo “como fazer” é parte essencial da sociedade japonesa, uma sociedade que ama os manuais, ama fazer as coisas de acordo com o livro, literalmente.
Nos velhos tempos antes da época das publicações em massa para o mercado, os manuais eram escritos em rolos. As pessoas acreditavam que o kotodama - a alma ou espírito da língua - residia em cada palavra; que ao manifestar um pensamento a pessoa lhe dá vida, que as palavras têm um poder espiritual. Essa crença atribuía a língua escrita e falada, era uma condição quase mística e estimulava uma reverência pela palavra escrita maior do que no ocidente.
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Hoje em dia a obsessão japonesa pelos manuais continua inabalável... a expressão "manyuaru ningen" (manuais humanos) surgiu para designar uma geração de jovens japoneses que parecem incapazes de pensar por si mesmos.
O termo passou a fazer parte da língua e agora é usado para definir pessoas que só sabem seguir instruções e não conseguem ter ideias originais.
Um sinônimo de manuais humanos são os "shijimachi ningen"(gente que espera instruções") que, como se pode imaginar, designa funcionários passivos destituídos de iniciativa.
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Não é raro que livros classificados como manuais fiquem semanas a fio nas listas de mais vendidos.
O número um, campeão de vendas atualmente ensina a conversar com coreanos. O número dois da lista dos mais vendidos ensina a fazer declaração de imposto de renda, o número três dá dicas sobre compra de terrenos. O número quatro é o indefectível manual do suicídio, cujo título é autoexplicativo se tomado ao pé da letra. O número 5 é o manual da felação e da cunilíngua superorgásmicas (com mais de 400 fotos).
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Pode-se encarar Kabukichō (bairro de Tóquio) como um exemplo da sociopatologia da vida japonesa ou como um microcosmo dos relacionamentos em geral.
As boates de acompanhantes, tanto para homens quanto para mulheres são provavelmente o aspecto mais incompreendido da indústria japonesa do entretenimento para adultos.
Nada tem a ver com sexo e sim com a ilusão de intimidade, e com a instigante possibilidade de sexo.
No Japão a intimidade é uma mercadoria, e raramente dada de graça.
Nos Estados Unidos é a mesma coisa, mas se paga a pessoas diferentes. Nos Estados Unidos se paga a psiquiatras, terapeutas, orientadores e conselheiros pessoais para ouvir os problemas e elevar a autoestima, fingir que gostam da gente e nos dar bons conselhos.
(Os amigos deviam fazer essas coisas de graça mas é sabido que eles recuam quando as águas se tornam mais profundas).
Os japoneses em geral acham que ir a um analista é sinal de fraqueza e admissão de doença mental, de modo que tendem a evitar esse tipo de amizade remunerada.
Quando um japonês quer levantar seu ego (e não seu pênis), quando quer que lhe deem atenção, que alguém ouça seus problemas, ele não vai para casa procurar sua esposa, ele vai a uma boate de acompanhantes.
Uma boate de acompanhantes não é uma boate de sexo, não é um bar fuuzokuten (fuuzoku = a indústria do sexo, ten = local), normalmente é um pequeno bar com diversas mulheres atraentes que recebem o cliente com carinho, sentam com ele no sofá, conversam, cantam karaokê com ele, agem como se fossem suas amantes, como se fosse de verdade.
Não é impossível que uma acompanhante saia com cliente, mas é raro. A transformação de cliente em namorado para a acompanhante significa na perda de renda, sem falar no possível distanciamento de seus clientes habituais. Ela deve manter a ilusão de disponibilidade para estimular uma pseudo paquera, que algum dia, pode acabar em sexo no caminho. Mas para este objetivo esquivo os clientes atingem até dez mil dólares por ano cortejando, pagando bebidas, dando presentes de aniversário e de vez em quando levando para jantar.
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Passados tantos anos o bairro de Kabukichō já não é mais o mesmo, mas continua sendo um local bem escuso.
A promessa de encontros, perigo, aventura e satisfação sexual está a seu dispor se você souber em que porta de que andar de que prédio você deve bater.
É o cúmulo da solidão.
Tóquio é uma das cidades mais densamente povoadas do mundo, no entanto, ou quem sabe por causa disso, muitos dos que lá vivem não tem com quem se abrir, em quem confiar ou com quem dividir segredos e preocupações ou desencantos.
Seja como for as boates na verdade se alimentam de desamor, tédio e solidão.
(os preços não são exorbitantes, mas o custo humano é altíssimo).



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