quinta-feira, 4 de março de 2021

Como não se desculpar em japonês como Mori (Yoshiro) - Japanese Language Blog

 

Cerca de 80% dos japoneses acha que não deveria acontecer as Olimpíadas em 2021. 

Diante deste cenário negativo, "Yoshiro Mori, um ex-primeiro-ministro de 83 anos 

(総 理 大臣 souri daijin) *primeiro-ministro

de forma insensível 

(無神 経 な mushinkeina ) *insensível

e com pronunciamentos sexistas, tentou justificar a falta de mulheres em um nível sênior no Comitê Olímpico Japonês dizendo que as mulheres falam demais nas reuniões e fazem com que as reuniões demorem demais. 

No dia seguinte ele se desculpou,

(謝 る ayamaru) *desculpar-se

mas sem mostrar nenhum remorso aparente 

(後悔 koukai) *remorso

e disse que não tinha intenção de renunciar".

(辞 任 す る jininsuru) *aposentar, retirar-se. 

 (Washington Post 2/11/2021)

 O incidente mostra um vocabulário curioso que está profundamente enraizado na sociedade e na cultura japonesa.

Vamos deixar de lado a questão óbvia de desigualdade de gênero desta vez.

Em 3 de fevereiro de 2021, Mori disse que as diretoras do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio eram 弁 え て い る. 

弁 え る (wakimaeru) é considerado uma virtude na sociedade japonesa. 

Nota Tradutor: WAKIMA (discriminar), WAKIMAERU significa também saber distinguir o certo do errado.

Então, o que isso significa? O mais próximo seria "saber seu lugar". 

Não soa totalmente positivo em nenhum idioma, não é?

Quando questionado por um jornalista durante sua entrevista coletiva de desculpas em 4 de fevereiro se ele queria dizer que as mulheres deveriam se abster de falar, Mori ficou muito irritado, declarando que o jornalista estava apenas tentando tornar seu artigo interessante.

No Twitter, as pessoas tuitam com a hashtag わ き ま え い 女 - uma mulher que não sabe seu lugar - para mostrar que as mulheres não devem ser silenciadas. 

A entrevista coletiva de Mori em 4 de fevereiro foi para se desculpar pelos comentários sexistas que ele fez. No entanto, a conferência é chamada de 逆 ギ レ 会見 (kaiken, conferência de imprensa). 逆 ギ レ é uma forma substantiva de um termo japonês muito popular - 逆 ギ レ す る (gyakugiresuru), e significa que aquele que está no local para se desculpar começa a ficar com raiva.

Mori começou seu discurso de desculpas dizendo que retiraria os comentários. 

O termo é 撤回 す る (tekkaisuru). Você pode retirar suas palavras. 

Tudo deve ser esquecido como a velha frase de efeito japonesa - deixe a água levar (水 に 流 す mizuni nagasu), que significa "perdoe e esqueça". 

Inicialmente, o COI não deu muita importância aos comentários sexistas porque Mori "retirou suas palavras", até que os patrocinadores começaram a fazer declarações condenando os comentários de Mori.

 Em sua entrevista de demissão em 12 de fevereiro, Mori se desculpou por seus comentários "inapropriados" (不適 切 な futekisetsuna) que causaram muitos problemas, mas ele alegou que era a vítima, como um "velho peido" (老 害 rougai) e foi tratado injustamente pela mídia. 

NT: 老害 ROUGAI se usa para designar um problema causado pela idade avançada mas também para a "gerontocracia", quando os mais velhos tem o poder sobre os mais novos.

Mas a saída de Mori do comitê não encerrará a luta da sociedade contra a discriminação de gênero.

Para ser justo, há quem diga que a mídia e algumas pessoas apenas leram certas partes de seu discurso e o criticaram injustamente, ou ele estava sendo intimidado.
Eu li na íntegra e minha opinião continua a mesma. O sentimento geral era de que o Japão precisava provar ao mundo que não toleraria o sexismo. No entanto, um comentarista de TV japonês disse, brincando, por que deveríamos nos importar com o que os EUA pensam se os EUA mantiveram por 4 anos um presidente que não tinha respeito pelas mulheres. Interessante…

Portanto, se você tiver que se desculpar publicamente no Japão, lembre-se desses termos e não aja como o Mori! 

Japanese Language Blog

NT:  No dia 18 de Fevereiro, para substituir Mori como presidente da Tóquio 2020 ,foi escolhida Seiko Hashimoto (que ocupava o cargo de ministro das Olimpíadas). Política experiente e ex-atleta que participou de diversas olimpíadas em duas modalidades, patinação de velocidade e ciclismo. Logo em seguida, Hashimoto oficializou a entrada de mais 12 mulheres para integrar o Comitê Olímpico Japonês, passando a participação feminina na entidade de 20% para 42%.

sábado, 20 de junho de 2020

TELHADOS JAPONESES





Como notou Junichiro Tanizaki, o grande escritor japonês:

“Se o telhado japonês é um guarda-sol, o ocidental é apenas um chapelinho. Melhor, como num boné, os rebordos estão reduzidos a tão pouca coisa que os raios diretos do sol podem incidir nas paredes até ao nível do telhado.”


Ainda por cima, além do longo telhado, a existência de um grande beiral e de uma varanda, já para não falar do filtro dos shoji (divisórias com aberturas cobertas com papel de arroz) permitem que apenas um pálido reflexo da luz do jardim penetre no interior. Tal espelha bem o gosto japonês pela sombra, pelos ambientes velados e a sua profunda repulsa pelo brilho vulgar.


A penumbra, ténue e incerta, os japoneses sabem-no bem, tem um encanto sutil e discreto:


“Não é que tenhamos uma reserva a priori relativamente a tudo o que brilha, mas, a um brilho superficial e gelado, preferimos sempre os reflexos profundos, um pouco velados.” (Junichiro Tanizaki)


Recordemos, a propósito, a diferença entre o papel de arroz, com a sua leve rugosidade, as suas nuances de cor, as suas zonas opacas e o nosso papel, que rebrilha com um branco metálico e sem mácula, como que traindo essa obsessão, tão ocidental e por vezes tão perigosa, pela “pureza”.

quinta-feira, 21 de março de 2019

TÓQUIO PROIBIDA - Jake Adelstein (trechos)


(...)

Os japoneses acreditam que existe uma maneira certa de viver, amar, provocar orgasmos femininos, decepar o dedo mindinho, tirar os sapatos, girar um bastão de beisebol, escrever uma matéria sobre homicídio, morrer e até acabar com a própria vida.

Há uma maneira certa, uma maneira perfeita para fazer qualquer coisa.

A reverência pelo “como fazer” é parte essencial da sociedade japonesa, uma sociedade que ama os manuais, ama fazer as coisas de acordo com o livro, literalmente.

Nos velhos tempos antes da época das publicações em massa para o mercado, os manuais eram escritos em rolos. As pessoas acreditavam que o kotodama - a alma ou espírito da língua - residia em cada palavra; que ao manifestar um pensamento a pessoa lhe dá vida, que as palavras têm um poder espiritual. Essa crença atribuía a língua escrita e falada, era uma condição quase mística e estimulava uma reverência pela palavra escrita maior do que no ocidente.



(...)

Hoje em dia a obsessão japonesa pelos manuais continua inabalável... a expressão "manyuaru ningen" (manuais humanos) surgiu para designar uma geração de jovens japoneses que parecem incapazes de pensar por si mesmos.

O termo passou a fazer parte da língua e agora é usado para definir pessoas que só sabem seguir instruções e não conseguem ter ideias originais.

Um sinônimo de manuais humanos são os "shijimachi ningen"(gente que espera instruções") que, como se pode imaginar, designa funcionários passivos destituídos de iniciativa.

(...)

Não é raro que livros classificados como manuais fiquem semanas a fio nas listas de mais vendidos.

O número um, campeão de vendas atualmente ensina a conversar com coreanos. O número dois da lista dos mais vendidos ensina a fazer declaração de imposto de renda, o número três dá dicas sobre compra de terrenos. O número quatro é o indefectível manual do suicídio, cujo título é autoexplicativo se tomado ao pé da letra. O número 5 é o manual da felação e da cunilíngua superorgásmicas (com mais de 400 fotos). 



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Pode-se encarar Kabukichō (bairro de Tóquio) como um exemplo da sociopatologia da vida japonesa ou como um microcosmo dos relacionamentos em geral.

As boates de acompanhantes, tanto para homens quanto para mulheres são provavelmente o aspecto mais incompreendido da indústria japonesa do entretenimento para adultos.

Nada tem a ver com sexo e sim com a ilusão de intimidade, e com a instigante possibilidade de sexo.
 

No Japão a intimidade é uma mercadoria, e raramente dada de graça.
 

Nos Estados Unidos é a mesma coisa, mas se paga a pessoas diferentes. Nos Estados Unidos se paga a psiquiatras, terapeutas, orientadores e conselheiros pessoais para ouvir os problemas e elevar a autoestima, fingir que gostam da gente e nos dar bons conselhos.

(Os amigos deviam fazer essas coisas de graça mas é sabido que eles recuam quando as águas se tornam mais profundas).

Os japoneses em geral acham que ir a um analista é sinal de fraqueza e admissão de doença mental, de modo que tendem a evitar esse tipo de amizade remunerada.

Quando um japonês quer levantar seu ego (e não seu pênis), quando quer que lhe deem atenção, que alguém ouça seus problemas, ele não vai para casa procurar sua esposa, ele vai a uma boate de acompanhantes.

Uma boate de acompanhantes não é uma boate de sexo, não é um bar fuuzokuten (fuuzoku = a indústria do sexo, ten = local), normalmente é um pequeno bar com diversas mulheres atraentes que recebem o cliente com carinho, sentam com ele no sofá, conversam, cantam karaokê com ele, agem como se fossem suas amantes, como se fosse de verdade.

Não é impossível que uma acompanhante saia com cliente, mas é raro. A transformação de cliente em namorado para a acompanhante significa na perda de renda, sem falar no possível distanciamento de seus clientes habituais. Ela deve manter a ilusão de disponibilidade para estimular uma pseudo paquera, que algum dia, pode acabar em sexo no caminho. Mas para este objetivo esquivo os clientes atingem até dez mil dólares por ano cortejando, pagando bebidas, dando presentes de aniversário e de vez em quando levando para jantar.

(...)
  
Passados tantos anos o bairro de Kabukichō já não é mais o mesmo, mas continua sendo um local bem escuso.
A promessa de encontros, perigo, aventura e satisfação sexual está a seu dispor se você souber em que porta de que andar de que prédio você deve bater. 


É o cúmulo da solidão. 


Tóquio é uma das cidades mais densamente povoadas do mundo, no entanto, ou quem sabe por causa disso, muitos dos que lá vivem não tem com quem se abrir, em quem confiar ou com quem dividir segredos e preocupações ou desencantos.


Seja como for as boates na verdade se alimentam de desamor, tédio e solidão.

(os preços não são exorbitantes, mas o custo humano é altíssimo).

domingo, 11 de novembro de 2018

DE CARONA COM O BUDA (trechos) - Will Fergunson



(...)

O Japão é tanto pescador quanto agricultor, é uma cultura insular, mas tem também a paciência (e as desconfianças) de uma cultura agrícola: o fascínio pelas estações, com planos de longo prazo, safras.
O mar os unem. O campo os definem.
 

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Nunca me sinto mais forasteiro do que quando assisto a um festival no Japão. Ali a cultura japonesa está a todo vapor, e tudo que se pode fazer é ficar de lado vendo-a passar.
Quando sai da área do castelo, os últimos tambores tocavam uma mensagem, e a mensagem não era para mim.
Não foi a ausência de rostos ocidentais no Festival de Uwa-jima que deixou um sentimento de vazio em meu peito. Verdade seja dita, prefiro ser o único forasteiro - ter tropeçado em outros ocidentais teria mexido com meu orgulho e me reduzido ao nível de turista. Digo a mim mesmo com frequência que não sou um turista. Existo em algum outro lugar, entre o voyeur e o exilado.
No Japão, a passagem de Turista a Exilado e finalmente em Aceito é interrompido em Exilado. Não há um passo final para a aceitação.
Somos mantidos à distância de um braço pelo arco de uma mesura, pelo som de um tambor.
 


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Os japoneses não são um povo frio. Às vezes gostaria que fossem, pois isso facilitaria a partida.
O problema não está em que você não é bem-vindo. Você é bem-vindo — como um forasteiro.
O problema não é a exclusão, o problema é a exclusão parcial.
A porta está aberta, mas a corrente está presa. Uma mão convida e a outra barra.
O Japão não é a Terra dos Corações Partidos, é a Terra do Orgulho Ferido.
Não é o fato de eu querer ser aceito e não conseguir que me incomoda. Não quero ser japonês. O que magoa meu coração ocidental é que não importa o que eu queira ou não. Eu não poderia ser japonês de qualquer forma, mesmo que quisesse, e isso dói no orgulho da gente.
Nós queremos rejeitar, mas não queremos ser rejeitados.
Eles chamam isso de Complexo de Seidensticker, por causa do estudioso e tradutor americano, e ele descreve os sentimentos ambivalentes que atormentam residentes estrangeiros que moram por muito tempo no Japão, um pêndulo de emoções se alternando entre atração e repulsa, afeto e raiva — indo e vindo.
Mas a imagem é falsa. Esses sentimentos não se alternam. Eles são inseparáveis. Tão inseparáveis como cheiro de urina e de incenso no mesmo vento.
O mesmo festival que o encanta o exclui.
As pessoas não amam e depois odeiam e depois amam o Japão, como um metrônomo.
Elas o amamodeiam, querem ficar pertolonge dele, irficar.
 



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Ele me mostrou algumas estampas de paisagens feitas por um artista visitante que pintava cenas de Shodo. Ficamos sentados no silêncio absoluto de sua casa por alguns instantes até ele dizer, quase como uma reflexão: “Ela morreu... Não faz muito tempo. Um ano. Menos, menos de um ano”.
Sorriu. Um sorriso de tristeza, uma expressão que é profundamente japonesa.
Eu costumava ficar intrigado com sorrisos de tristeza, mas agora acho que os compreendo.
Esses sorrisos revelam emoções que os japoneses tentam esconder. Eles dizem: Estou triste, por isso vou sorrir na compreensão de que você perceba que isto é apenas uma fachada que esconde um sofrimento profundo demais para lágrimas.
Ensaios inteiros foram escritos sobre o sorriso japonês, é um suspiro adiado, e é bem mais profundo que soluços de choro ou lágrimas escorrendo.
 

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Shuho Jishi, o jovem sacerdote do Templo Seiken-ji, falava inglês fluentemente. Tinha passado seis anos numa missão xintoísta em São Francisco e se adaptou bem à vida na América, mas quando seu pai morreu ele foi obrigado a retornar para a ilha de Shodo e assumir o templo da família.
“Sou o filho mais velho”, me disse com simplicidade. “O sacerdócio não é uma vocação no Japão; é um posto hereditário”.
Como em tantas coisas no Japão, o comportamento adequado é a essência do culto: como seguir os rituais, como recitar sutras importantes, como evitar erros de protocolo.
Treinamento e conhecimento apropriado são absolutamente necessários, mas uma espiritualidade profunda não é obrigatória.
 

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Um repórter de aparência soturna apontou para um mapa de satélite do Japão e explicou que em Kanazawa as cerejeiras só estavam oito por cento floridas, trinta e quatro por cento a menos que no ano passado. Ou talvez fosse o contrário. Seja como for ele estava muito preocupado com isso e, para prová-lo, a emissora de televisão mostrou uma seleção de mapas cobertos por linhas de contorno, espirais e grades complicadas, como se dizendo: “Pagamos uma fortuna por esses mapas, por isso agora vocês vão ver todos esses malditos mapas”.
 


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Sonhos.
No Japão a palavra ‘sonhos’ carrega consigo uma nuance de ilusão.
Admitir alguma coisa como seu sonho é quase admitir que ela seja inatingível. Atravessar um continente numa moto. Donas de casa que sonham com caravanas. Forasteiros sonhando em ser aceitos.
O Japão está cheio desses sonhos; os sonhos se impregnam nele como as incontáveis divindades que habitam cada montanha, cada rocha, cada ilha e cada baia. Eles moram em casas. Altares são construídos para sustentá-los, eles são aplacados com pequenas oferendas, são inatingíveis como as brumas, inevitáveis como o ar. Sonhos adiados.
Um dos ideais japoneses é o auto sacrifício, e a primeira coisa sacrificada são, em geral, os próprios sonhos secretos, intensamente pessoais, inatingíveis.
Lembro-me de uma mensagem grafitada na parede de um templo, uma das primeiras frases japonesas que decifrei: “o Japão é uma nação movida em boa parte por suspiros”.
 


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Eu costumava pensar que no Japão “algum dia” queria dizer “em breve”, ou “eventualmente”, mas estava errado.
No Japão, algum dia não existe no futuro, existe numa esfera absolutamente diferente da existência. Significa “em outra vida, em outro tempo”.
 

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Ninguém pode afirmar que viveu se não viu um assalariado japonês cantando a balada “My way”, de Frank Sinatra. E uma daquelas visões tristes e quintessências que parecem definir o Japão. Que espetáculo mais estranho e, contudo, comum: um assalariado todo amarrotado, vivendo uma vida de mesuras e conformismo sufocante, um homem casado com a sua empresa, um homem que — aos milhares, todos os anos — trabalha até a morte para o bem da corporação, um homem que tem que comer merda e sorrir o dia inteiro, um homem que alimenta o motor econômico da nação e, no entanto continua obscuro, ignorado e, muitas vezes, é abertamente escarnecido.
Um homem assim, de pé e cantando num inglês sentido: sua voz mostra, ele recebeu os golpes e fez da sua maneira! Isso é algo que não se esquece tão cedo.
 

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Hoje, vinte e quatro mil japoneses reivindicam ascendência ainu, mas poucas têm sangue puro e sua língua é tudo menos morta, graças, em grande parte, a uma campanha concentrada e incansável de assimilação montada pelo governo japonês. A influência ainu parece ter se estendido, no passado, bem para o sul no interior de Honshu — o “Fuji”, de Monte Fuji, é considerado de origem ainu —, mas o ainu de hoje se reduziu a um espalhafatoso espetáculo de segunda categoria para turistas.
Idosos ainus ficam sentados estoicamente exibindo suas tatuagens como uma exposição de lepra, enquanto turistas japoneses riem e posam ao lado deles para fotos. São muito deprimentes esses zoológicos humanos...
Enraizou-se ultimamente um renascimento teimoso da cultura ainu, sobretudo no que diz respeito a música, lendas e dança, mas no geral a situação é delicada.
Aborígines australianos, nativos norte-americanos, índios sul-americanos... algo na psique dos colonizadores se incomoda com a propriedade primitiva, já que os tratamos de forma paternalista, os brutalizamos, ignoramos, e depois nos tornamos poéticos sobre os povos que desalojamos.
 

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Telhados japoneses.
Eles transformam a mais humilde casa japonesa num castelo. (suspeito que o principal propósito da própria casa seja simplesmente sustentar e exibir melhor o telhado.)
Algumas casas no Japão são mesmo construídas do telhado para baixo, sem colunas de sustentação central, num desenho que tem sido descrito como “um livro equilibrado sobre lápis”.
Em muitos países ocidentais, o topo pesado das casas japonesas seria reprovado pelas normas de construção. Mas quando os terremotos estrondeiam pelo Japão, derrubando viadutos e rachando concreto, as pequenas casas de madeira de teto pesado oscilam como bêbados e seguem de pé.
 


(...)
 

As casas japonesas se amontoam na beirada das ruas da cidade. Elas se espremem, lado a lado, quase parede com parede. Entre elas correm vielas da largura de um braço apenas. Os bairros são um labirinto de ruas de pista única, divisões estreitas, becos sem saída.
Os japoneses geralmente mencionam o alto custo da terra para justificar esse efeito de pacote apertado, mas há outras razões.
Uma aldeia japonesa típica é cercada de áreas abertas, convidativas: florestas, arrozais, montes. Mas em vez de espalhar as casas por elas e proporcionar um espaço maior a cada pessoa, os japoneses enfiam suas casas em pacotes apertados, como que se agarrando uns aos outros para se protegerem. Os arrozais formam um fosso de verdura a seu redor, e os japoneses vivem uns nos colos dos outros.
Isso é um hábito nascido em parte da geografia — os fiordes da costa naturalmente encorajam as aldeias a se aglomerarem em enseadas.
Mas é algo mais também.
O plano das aldeias japonesas nasceu de uma necessidade que o Ocidente, em grande medida, tem taxado de fraqueza: a necessidade de companhia humana e a tristeza de estar só.
No Ocidente nós tememos a insignificância.
No Japão eles temem a solidão, é nesse sentido amplo que o Japão é descrito como feminino e o Ocidente como masculino.








sexta-feira, 2 de novembro de 2018

CÃES E GATOS... E CARNEIROS.




"Se pudéssemos dividir as pessoas em dois grupos, cães e gatos, é quase certo que eu faria parte do segundo grupo. Afinal, tenho a tendência de virar para a esquerda quando me falam para virar a direita, e de virar para a direita quando me falam para virar à esquerda. Às vezes acho que eu não deveria ser assim, mas, para o bem ou para o mal, o meu temperamento é esse, por mais que no mundo existam pessoas diferentes.
 
Entretanto, com base na minha experiência, digo que o objetivo do sistema educacional do Japão é criar pessoas da categoria. dos “cães”, úteis à comunidade, e, indo além, diria até que o seu objetivo é criar pessoas da categoria dos “carneiros”, que se deixam ser levadas com as demais.

Não é somente na escola que existe essa tendência; parece que ela alcança todo o sistema social japonês, especialmente empresas e organizações governamentais. E essa tendência (a rigidez da valorização dos resultados numéricos e a priorização do que é imediato e utilitário, como a que vimos na decoreba mecânica) está provocando danos graves em várias áreas.

Por algum tempo, o sistema que priorizava o utilitário funcionou bem. Talvez ele tenha sido adequado à época em que o objetivo e a meta de toda a sociedade estavam bem definidos e as pessoas eram incentivadas a sempre seguir em frente.

Mas, posteriormente à reconstrução do país pós-Segunda Guerra Mundial, para além do rápido crescimento econômico e do estouro da bolha, já não se pode dizer que devemos sempre avançar, todos juntos, em direção ao mesmo objetivo.

Afinal, o nosso futuro já não pode mais ser visualizado através de uma única perspectiva".

Haruki Murakami (Romancista como vocação)